quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Correctivos orgânicos e compostagem STC Ciência Tipo:III

A gestão dos nutrientes em agricultura biológica é muito diferente da gestão utilizada na agricultura convencional. Nesta última é permitida a aplicação de fertilizantes minerais sintéticos e, por isso, é possível aplicar doses de nutrientes em função das necessidades das culturas, antes da plantação, e durante o crescimento da cultura. Estas práticas são, no entanto, proibidas em agricultura biológica, que depende, exclusivamente, dos nutrientes porventura acumulados no solo por culturas precedentes, e pela incorporação de correctivos orgânicos que diferem muito na sua constituição e na quantidade de nutrientes que disponibilizam. O azoto nos correctivos orgânicos, como nos estrumes de curral, encontra-se principalmente na forma orgânica. Na fracção mineral o azoto encontra-se principalmente como azoto amoniacal. O azoto orgânico é constituído por compostos orgânicos facilmente mineralizáveis e por compostos orgânicos que podem demorar meses ou anos a serem mineralizados. Os primeiros contribuirão mais para a nutrição das culturas no curto prazo, pelo contrário, os segundos contribuirão mais para o aumento da fertilidade do solo no longo prazo.
A disponibilidade de azoto mineral proveniente dos resíduos orgânicos que se mineralizam no solo depende ainda da quantidade de azoto mineral que se perde por volatilização e por lixiviação. Estas perdas variam com a época em que se aplicam os correctivos orgânicos e com as condições edafo-climáticas. Por exemplo, os riscos de lixiviação são potencialmente maiores em solos arenosos e em solos encharcados, e os riscos de volatilização dependem fortemente da temperatura do ar.

As perdas de azoto podem ser muito elevadas (por exemplo, de 50%) durante o processo de compostagem dos materiais orgânicos, particularmente quando faltam os materiais com elevada relação C/N. Por esta razão, Lampkin (1992), refere a necessidade de uma relação C/N de 25 a 35 para uma boa compostagem. As maiores perdas de azoto resultam da volatilização do amoníaco, principalmente quando se areja a pilha de compostagem. As perdas de azoto são, por isso, muito menores durante a decomposição anaeróbia dos materiais orgânicos. Kirchmann (1985) refere que o azoto nos estrumes compostados em condições aeróbias é praticamente todo (95%) orgânico, enquanto o estrume decomposto em condições anaeróbias tem uma fracção muito maior de azoto amoniacal
Tyson & Cabrera (1993) compararam o efeito no solo de resíduos de aviário compostados e não compostados, e verificaram que estes últimos contribuíram para elevar a concentração de azoto nítrico no solo de 20 para 120 mg kg-1 numa semana, enquanto o material bem compostado aumentou apenas de 20 para 30 mg kg-1 em 8 semanas. Ekbladh (1995) registou, numa cultura de alho francês, valores três a cinco vezes superiores na mineralização de azoto orgânico no solo com chorumes em comparação com estrumes sólidos bem compostados. Power & Doran (1984) consideraram disponível 10 a 25% do azoto em estrumes bem compostados e 1 a 50% do azoto em estrumes frescos.
Por estas razões, Kirchman & Bernal (1997) consideraram que o tratamento anaeróbio dos resíduos orgânicos seria preferível para a produção vegetal porque as perdas de azoto seriam menores e o azoto seria mais eficazmente reciclado através das culturas. Isto sugere que a digestão anaeróbia poderá conferir maior valor fertilizante aos correctivos orgânicos em comparação com a digestão aeróbia (vulgarmente designada por compostagem). Lampkin (1992) considera que o objectivo da agricultura biológica é o aumento, no longo prazo, dos teores de matéria orgânica no solo, e que isso é conseguido com materiais bem compostados e não com materiais mais frescos. No entanto, o contributo dos compostos orgânicos para a matéria orgânica do solo, no longo prazo, não depende exclusivamente do processo de compostagem e do seu grau de amadurecimento, mas também, dos materiais originais que os constituíam. Por exemplo, uma pilha mal compostada de materiais com muita lenhina podem ter uma fracção reduzida de azoto facilmente mineralizavel, e um material bem compostado de resíduos verdes e dejectos animais pode ter demasiado azoto facilmente mineralizavel, ou mesmo mineralizado caso ainda não tenha sido perdido.
As diferentes formas como os estrumes sólidos e líquidos se comportam no solo podem ser aproveitadas para exercer uma gestão do solo adequada às rotações culturais. Por exemplo, estrumes bem compostados podem ser utilizados antes das culturas que não sejam muito exigentes em azoto no inicio da cultura, e estrumes mais frescos e estrumes líquidos podem ser utilizados para disponibilizar azoto no curto prazo às culturas.

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